Terça-feira, Janeiro 02, 2007

"Como Dois e Dois São Cinco"










Por Rafael Pesce

Tente definir o amor. Conseguiu? Provavelmente uma infinidade de clichês e frases prontas vieram à sua mente. Mas invariavelmente, todas as respostas convergem para um único ponto: o amor é irracional. Ele não tem lógica, e quem sabe é por isso que recorremos a frases prontas para tentar explicá-lo, já que é muito mais fácil do que gastarmos horas e horas a fio tentando encontrar uma solução que nos satisfaça.

Conformar-se com a situação descrita acima é o que pessoas normais deveriam fazer, mas a questão é que a normalidade me abandonou há muito tempo atrás. A loucura e a insanidade tomaram o seu lugar, ainda mais depois que passei a cursar Matemática na faculdade. A minha tentativa de mudar tudo começou em uma noite de insônia, mais ou menos dois meses atrás...

Dor nas pernas, inquietação, calor, um verão insuportável. Doce ilusão daquelas pessoas que acham que só porque eu moro no sul eu vivo em um lugar onde o frio é constante por 12 meses. O verão daqui é infernal, e o que parece aos olhos dos outros ser um pedaço da Europa no Brasil transforma-se em um forno, cujo botão de desligar está estragado, pelo menos até o outono chegar. A questão é que a falta de sono tem uma conseqüência inevitável: tempo de sobra para pensar. Não posso negar que é até uma coisa boa, mas as penitências no outro dia são terríveis: dor no corpo, indisposição e consumo exagerado de cafeína. Durante uma noite produtiva de insônia, pensando nos caminhos tortos da paixão, tive a brilhante idéia de tentar transformar o amor em uma ciência exata e racional. Afinal, estava cursando Matemática, para alguma coisa isso deveria servir. Estamos no século 21, com toda a tecnologia que nos cerca já deveriam ter arrumado algum jeito de decifrar o DNA do amor. Eu estava solteiro havia mais ou menos uns 7 meses, e meu último relacionamento havia sido um pouco traumático. Para variar, a minha ex me culpava pelo fim do relacionamento, porque segundo ela eu era ciumento demais e não a deixava respirar. Tudo bem, eu entendi o recado e conduzi a bola para frente. O problema é que não cheguei a gol algum, e agora estou aqui deitado na cama, ainda pensando numa solução lógica para entender o amor. Bom, para começar, nada melhor do que pegar uma folha em branco. Aquela infinidade de espaço, apenas esperando para ser preenchido com traços, cores e letras, que podem conduzir à uma genialidade ou apenas mais uma inutilidade besta. Acho que um bom começo é fazer uma retrospectiva, afinal, “clichemente” falando, é com o passado que aprendemos nossos erros. No papel em branco, desenhei uma tabela, e em seguida anotei o nome das 3 namoradas que tive ao longo dos meus 23 anos, uns 5 affairs duradouros que me marcaram, e mais o nome de 12 mulheres que estavam na categoria de affair passageiro. No total, 20 nomes, alfabeticamente ordenados em uma coluna no lado esquerdo da folha. Do lado direito, uma outra categoria com o nome de “erros cometidos”. Anotei todas as falhas que protagonizei durante praticamente toda a minha vida amorosa, tudo isso na tentativa de fazer a equação perfeita, que proporcionasse elevar minhas habilidades a um nível de par perfeito. Estavam lá desde “entregar flores, não só no começo do relacionamento, mas periodicamente”, passando por “ser compreensivo e agüentar os esculachos no período de TPM”, até “jamais revelar suas fantasias sexuais que envolvam mais de uma mulher”. Confesso que uma folha foi pouco, e depois de encher três páginas com anotações, me senti mais confiante para encarar qualquer encontro.

Não foi preciso esperar muito para por a minha teoria em prática. Havia mais ou menos uma semana que a Luciana, minha colega de faculdade, me olhava com um olhar “maldoso”, apenas à espera de um convite. E ele veio, na forma de um sutil pedido de “gostaria de sair comigo?”

Na mesma noite, eu e a Lu nos dirigimos até o Café Vermont, um simpático lugar para um encontro. De acordo com minhas anotações, este tipo de local era um dos preferidos das mulheres. Era pequeno e aconchegante, charmoso, quieto, discreto e com opções de iguarias não calóricas para o corpo feminino. De acordo com as regras, eu deveria evitar churrascarias, botecos, pizzarias e afins, e foi isso que eu fiz indo ao Vermont. Seguindo a cartilha coerentemente, escolhi uma mesa bem localizada, e enquanto puxava a cadeira para a Lu sentar, disse o quanto ela estava bonita, e a deixei falar bastante, evitando o egocentrismo que às vezes me assola.

- E tu sabe, eu nunca gostei mesmo daquela aula, o professor sempre me pareceu meio patético. Mas também pode ser um pouco de birra minha sabe, aquela coisa de que “não gosto dele por que ele me deu bomba na prova” e blá blá blá...
- Aham!
- E tu sabe, também teve aquela vez...blá blá blá

Depois de um bom tempo agüentando o papo furado dela, resolvi tentar me impor aos poucos, e ir incrementando alguns assuntos um pouco mais abalizados.

- Poxa, e o Saddam foi enforcado né? Agora só falta o Bush.
- Pois é, eu vi no You Tube. Mas sabe, ontem eu fui no shopping e vi um vestido lindo, mas meu cartão ficou em casa...blá blá blá
- Aham, falando em compras, as vendas nesse ano aumentaram 25% em relação ao natal passado né.
- Deve ser, tava tudo cheio, mas então depois de ver o vestido eu resolvi procurar um sapato que combinasse com os brincos que eu tinha comprado na semana passada...blá blá blá

Egocentrismo é uma coisa, mas o papo dela já estava virando palhaçada. Cansado da conversa, e vendo que meu livro de regras não se aplicava ao exemplar feminino que estava postado em minha frente, resolvi perder as estribeiras e ir ao banheiro. Pelo menos era o que o meu par pensava. O toalete ficava a esquerda, mas eu tomei o caminho da direita, aquele que dava direto para a rua, e consequentemente minha liberdade. Antes de me você me chamar de algum nome de baixo calão, reitero que deixei o dinheiro da conta com o garçom, logo a Lu não teve que desembolsar nada pela noite “inesquecível”. Voltei para casa caminhando calmamente, com o olhar levemente inclinado para cima, de uma maneira que eu pudesse apreciar o céu estrelado ao mesmo tempo em que desviava dos postes que importunavam o meu caminho. Depois deste encontro, cheguei à conclusão de que o Caetano Veloso tinha razão, 2 + 2 são 5. O amor não é uma ciência exata, é um sentimento torto, que não nos apresenta um caminho ao qual seguir. Por isso, o melhor que tenho a fazer agora é abandonar a planilha e a calculadora e seguir a minha vida, quem sabe em alguma curva eu encontre o meu denominador comum.

Sexta-feira, Novembro 03, 2006

"A pizza, o alter ego e o fundo do poço!"















por Rafael Pesce


A cidade corria em ritmo acelerado. As luzes, cores e sons misturavam-se em um mosaico, onde apenas a figura da minha pessoa, solitariamente caminhando, aparecia deslocada no meio deste mundo surreal. Realmente eu precisava sair de casa, tentar relaxar um pouco e me animar para viver o resto da vida. Ela fora afetada diretamente pelo ato que eu acabara de cometer. Uma morte não é assim tão fácil de assimilar, não sei se chegamos a nos recuperar completamente de uma “tragédia” como essa, ainda mais quando o culpado é a gente mesmo. No meu caso, posso pagar uma dura pena, pois cometi um assassinato, sem dó nem piedade, a sangue frio. Nesta noite meus amigos, assassinei brutalmente meu alter ego.
Poucos momentos após o crime, meu caminho estava traçado. Tudo que eu precisava era encontrar um lugar onde o pecado da gula suprisse a culpa que eu sentia pelo descumprimento do quinto mandamento, aquele que diz “não matarás”. Eu caminhava a passos lentos pela avenida lotada de pessoas, até finalmente chegar a um restaurante onde eu sabia que iria encontrar uma comida quente e deliciosa, juntamente com um bom atendimento. Lá eu poderia me isolar do mundo um pouco. Entrei no estabelecimento e me dirigi cegamente para uma mesa escondida no canto. O ar condicionado estava forte, e eu não tinha trazido o meu casaco, mas tudo bem, o frio é suportável quando não estamos dando a mínima para ele. Acendi o meu cigarro, mas o garçom prontamente apontou para uma placa com os dizeres de “Proibido Fumar”. Apaguei-o imediatamente, e franzi a testa ao constatar que este era o meu último. Peguei o cardápio e fui em busca de alguma iguaria bem gordurosa, capaz de me satisfazer em poucos instantes. Resolvi apelar para a pizza, e a fase de dúvidas e complicações pela qual eu estava passando se refletiu na minha escolha: uma pizza inteira, metade calabresa, metade chocolate branco; o salgado e o doce. Juntos eles logo habitariam o meu estômago. Confesso que um dos motivos que me levaram a escolher esta mesa bem isolada, foi o jogo de futebol que estava passando na televisão ali perto. Estranhamente, era um Cruzeiro e Atlético Mineiro, em plena terça-feira. Fiquei desconfiado, não era dia de campeonato brasileiro, e o galo jogava a segundona neste ano. Foi aí que percebi os patrocínios das camisetas: eram de marcas que eu nem sabia se existiam ainda. Moral da história: o jogo era de 10 anos atrás, a final do campeonato mineiro de 1996. Já se passavam 30 minutos, não da partida, que já estava no segundo tempo, mas sim do meu pedido, que já demostrava sinais de que iria atrasar. Eu estava faminto, e ficar esperando para comer nesta situação era o que de pior poderia me acontecer. Foi neste momento que olhei para fora e percebi que chovia. A palavra pegadinha começou a fazer cada vez mais sentido para mim. Droga, eu havia esquecido meu guarda chuvas em casa. Pelo menos a minha cerveja veio gelada, nem tudo estava perdido.
Que sensações temos ao matar nosso alter ego? Difícil decidir, mas meu top 5 seria:

1) Sensação de ser você mesmo de novo.
2) Tristeza pela “morte” da pessoa tão próxima.
3) Leveza. Simplesmente isso.
4) Confusão. Será que realmente fiz a coisa certa?
5) Dúvida. Ter um alter ego era uma coisa idiota? Ou eu era um idiota por ter um alter ego?

Merda, pensando bem, acho que fui um incompetente. Resquícios do meu alter ego ainda insistiam em habitar o meu corpo. É complicado se livrar completamente de algo que fez parte da gente durante um longo período. Começo a perceber isso cada vez mais fortemente, mas eu não podia voltar atrás, o crime já havia acontecido. A recaída que eu acabara de ter só pode ter sido coincidência, ou força do hábito mesmo. A verdade é que o vazio que meu alter ego deixou em mim tinha que ser preenchido de alguma maneira. Mas com a morte dele, acho que finalmente eu estava pronto para me relacionar seriamente com uma mulher. Afinal, a culpa por ele ter aparecido pertencia a uma fiel representante do sexo feminino. Naquele momento, apenas o calor de um corpo feminino, as carícias de uma mão suavemente me massageando e o sorriso de uma querida acordando diariamente ao meu lado pareciam ser coisas sensatas as quais buscar. Dizem que é preciso chegar ao fundo do poço para nos reerguermos e começarmos a reconstruir nossas vidas. Pois bem, a morte do meu alter ego, aliado a demora de uma hora até minha pizza chegar à mesa, haviam me levado até este ponto. Finalmente eu me sentia pronto para subir e voltar para um lugar o qual nunca deveria ter abandonado. Agora meus amigos, o céu é pouco para mim, ele com certeza não será o meu limite.

PS: as referências sobre quem é o alter ego se encontram “perdidas” pelo conto, achei melhor não expô-lo escancaradamente, afinal, ele está morto.

Quarta-feira, Outubro 25, 2006

"Samba das Saias de Verão"


















Por Rafael Pesce


“ Você viu só que amor
Nunca vi coisa assim
E passou, nem parou / Mas olhou só pra mim
Se voltar vou atrás / Vou pedir, vou falar
Vou contar que o amor / Foi feitinho pra dar
Olha, é como o verão
Quente o coração / Salta de repente
Para ver a menina que vem
Ela vem sempre tem
Esse mar no olhar
E vai ver, tem que ser / Nunca tem quem amar
Hoje sim diz que sim / Já cansei de esperar
Nem parei nem dormi / Só pensando em me dar
Peço, mas você não vem
Bem / Deixo então
Falo só / Digo ao céu
Mas você vem “


“Samba de Verão”, de Marcos Valle, não poderia ser mais perfeita para embalar os longos passos que me encaminhavam à Rua da Praia. Porto Alegre é mais ou menos assim: uma semana é um frio de rachar, onde ternos, blusões, cachecóis e casacos desfilam saudavelmente em um mar de peles e tecidos. Na semana seguinte, tudo pode mudar, e o tradicional calor infernal que assola o sul pode chegar repentinamente, transformando a vida de todos em um forno. Hoje está um dia assim. Na verdade, é o primeiro depois de uma longa temporada com uma extensa friaca. Mas se o verão tem uma coisa boa, é definitivamente a saia. Sim, a saia mesmo, com seus diversos modelos, vestindo com perfeição uma infinidade de corpos femininos, todos em busca do conforto e beleza que só uma linda saia pode proporcionar. O melhor do verão é isso, é poder olhar para todos os lados e notar que de repente as mulheres estão mais bonitas, alegres, sorridentes e atraentes. Para mim, boa parte disso é “culpa” da saia mesmo. Sem ter que se preocupar com o desconforto e aperto de uma calça, as mulheres passam a flutuar em vez de caminhar, e dependendo do modelo usado, a vestimenta acaba se tornando uma afronta e forte provocação à tentação masculina. O difícil é não se apaixonar inúmeras vezes em um mesmo dia. Não é canalhice, nem nada parecido, é apenas o amor platônico elevado a sua enésima potência.

Bem, mas voltando à Rua da Praia...

Andava eu sozinho pela Rua da Praia, sorriso estampado no rosto, Marcos Valle no ouvido e os olhos bem abertos, apenas apreciando o embalar das pernas femininas que me encantavam a cada esquina. Em um universo concorrido, onde centenas de saias perambulam em todo lugar, é difícil conseguir um espaço de destaque, ofuscando as concorrentes e arrebatando a atenção do globo ocular dos homens. Mas o difícil não é tarefa impossível. Enquanto me recuperava da tontura dos movimentos contínuos que minha cabeça fazia (devido a árdua tarefa de observar saias), passou por mim uma daquelas raras mulheres, capazes de resumir o nosso universo em apenas um olhar. Pernas longas, envoltas por uma saia listrada (preto e branco), que terminava em uma altura um pouco acima do joelho, deixando aquele ar de mistério, que convivia pacificamente com o jeito sexy proporcionado apenas por uma peça de roupa como aquela. Percebi estes detalhes em uma questão de segundos, já que a moça passou rapidamente por mim, em um andar linear e decidido. Chamaria-a de blasé, se encantadora não fosse o primeiro adjetivo a aparecer na minha cabeça. Porém, discretamente ela olhou para trás, e o sorriso que eu vi já fez o meu dia valer a pena. O caminhar dela era apressado, e esforcei-me ao enfrentar a multidão e segui-lá pela Andradas (verdadeiro nome da Rua da Praia) tumultuada, onde as listras preto e branco da vestimenta confundiam-se com o chão de mesma cor da famosa rua. Incessantemente a persegui, e de longe avistei-a entrando no Santander Cultural. Ao chegar no local, deparei-me com uma placa fazendo a propaganda de um festival musical que aconteceria hoje, o “Poa em Bossa”. Já que meu dia começou com Marcos Valle, acabá-lo com bossa não seria uma má idéia. Apostei minhas fichas que subindo os degraus que davam acesso ao evento, eu poderia encontrá-la, e nao deu outra. Entrei no recinto embalado pelo som de “Tem Dó de Mim”, de Carlos Lyra, executado pelo trio que se apresentava no palco. Para todos os lados que eu olhava haviam saias, e meus olhos encontravam mais e mais olhares, todos em busca do mesmo objetivo provavelmente. Mas aquela saia e aquelas pernas eram únicas, e não demorei a perceber que a bela moça estava charmosamente sentada em uma mesa bem perto do palco. Ela estava sozinha, com as pernas cruzadas, o que aumentava ainda mais o encanto que a saia proporcionava. Eu estava em um dilema: poderia muito bem ir lá falar com ela e ver no que ia dar, ou então ficar onde estava para não arriscar um inusitado encontro com algum eventual namorado, marido ou affair que ela poderia estar a espera. Me lembrei de “Samba de Verão”, e coincidentemente a banda começou a tocá-lo. Ainda meio receoso, esperei um pouco, e no momento que o vocalista cantava a parte onde diz “e vai ver, tem que ser, nunca tem quem amar, hoje sim, diz que sim, já cansei de esperar”, tomei a coragem e influência necessária para ir ao encontro dela. Com a imponência e auto confiança necessária a qualquer conquistador que se preze, sentei-me ao lado daquelas pernas, e agora pude observar calmamente que a beleza da moça não se resumia apenas à isso. Dona de um sorriso monumental, uma pele angelical e um olhar penetrante, ouvi a sua voz suavemente cantarolar a bossa, ao mesmo tempo que me oferecia o whisky que segurava com a mão direita. Passamos o dia ouvindo bossas, conversando e bebendo...e quando “Felicidade”, de Tom Jobim e Vinicíus de Moraes, chegava ao refrão - “tristeza não tem fim, felicidade sim” - comecei a pensar se os momentos de alegria que eu estava passando iriam acabar. Resolvi não esquentar a cabeça, e depois de acompanhar a moça até a casa dela, e me despedir com um caloroso beijo, percebi que hoje fora um dia atípico. Apesar de ter passado um clássico dia de verão, onde havia presenciado um vasto mundo de pernas e saias por aí, eu me apaixononei apenas uma vez. Pensando bem, amanhã vai ser outro dia, 24 horas em que saias estarão por todos os lados novamente, e se a felicidade tem fim, é só porque um novo ciclo de alegria, ainda melhor, está para começar...

Sábado, Setembro 02, 2006

"Vou Ficar Nu Para Chamar Sua Atenção"













Por Rafael Pesce


Prefácio: Algumas idéias e inspirações deste conto vieram da fabulosa música "Vou Ficar Nu Para Chamar Sua Atenção", de Erasmo Carlos.


Meus dias eram longos e entediantes. Faz mais de três anos que trabalhava na biblioteca central da cidade, catalogando livros e mais livros, dividindo-os por autor, editora, gênero e ano. Eu posso dizer que já estava acostumado com a monótona vida de um bibliotecário. Mas também não podia reclamar de tudo. Eu tinha tempo de sobra para ler o livro que eu quisesse, e a tranqüilidade do ambiente, aliada com algumas pílulas, ajudavam a acalmar minha hiperatividade. Porém, meu coração que outrora batia lentamente e a ritmos mansos, foi abalado por uma mulher de tamanha beleza, que faria qualquer pessoa do local trocar as páginas de um livro por um sorriso dela. Fiquei atônito com aquela presença, e resquícios da minha hiperatividade pareciam dar sinais de volta. Primeiramente eu pensei: “é só hoje, amanhã ela não estará aqui e tudo voltará ao normal”. Mas eu estava redondamente enganado. A moça dos meus sonhos começou a freqüentar a biblioteca diariamente, sempre com a mesma rotina. Ela chegava por volta das 13 horas e ia diretamente para a seção de literatura estrangeira. Pela posição que ficava a minha mesa, não era possível identificar que livros especificamente ela olhava todos os dias. Por volta das 17 horas, perto do horário de fechamento da biblioteca, ela selecionava alguns livros e se dirigia à mesa da Dona Vera, a funcionária responsável pela retirada das obras literárias. Todos os dias, ao fazer este trajeto, ela passava por mim, me obrigando a sentir o suave perfume que exalava do seu corpo. Ela não olhava para os lados, parecia extremamente concentrada, caminhando de um modo decidido. Esse certo desprezo acabava por despertar ainda mais minha paixão, e eu ficava pensando no que poderia fazer para conseguir pelo menos um minuto de atenção daquela mulher. Os dias passavam lentamente, e minha agonia apenas aumentava. Não ousaria sair do meu posto para ir importuná-la com um papo banal, até por que levaria uma bronca do meu chefe e provavelmente ganharia um olhar de ódio daqueles olhos concentrados na leitura. Resolvi tentar descobrir um jeito de chamar a atenção dela. Meu primeiro passo foi falar com a Dona Vera depois do expediente. Tentando disfarçar o meu entusiasmo, perguntei para a funcionária que livros que estavam sendo retirados pela nossa mais nova freqüentadora. Era difícil enganar a experiente senhora, e a primeira coisa que ela disse para mim foi um sonoro “você está apaixonado por ela, não?”. Não tive como me esquivar, e nem teria por quê. A antiga bibliotecária era dona de um bom coração, e meus desejos e segredos ficariam bem guardados com ela. Depois de uma rápida consulta no computador, obtive das mãos da bondosa senhora uma folha impressa com todos os livros retirados pela minha querida. Coincidentemente, todos eles se encaixavam na categoria suspense e mistério. A lista começava em Agatha Christie, passando por Sidney Sheldon e Edgard Wallace, e terminando com Stephen King. O que será que ela estava fazendo com todos estes livros de mistério? Poderia ser alguma atividade para a faculdade, ou quem sabe um trabalho de conclusão sobre livros de suspense, ou melhor ainda, ela poderia estar escrevendo um livro e precisando apenas de inspiração. Não dormi direito neste dia, tamanho as dúvidas e curiosidades que rondavam meus pensamentos. Ao levantar no dia seguinte, tive que apelar para o café (ele aumenta e muito minha hiperatividade) para me manter acordado durante o trabalho. No começo da tarde lá estava a minha bela novamente, desfilando seu charme e fazendo eu me sentir invisível. Estava difícil conter meus sentimentos, queria e muito fazer algo, e para me manter ocupado passei o resto do dia escrevendo versos e versos sobre ela. Acabei com o estoque de rascunho que havia em minha mesa, e depois de tudo isso, não achei minhas palavras merecedoras da beleza dela, e resolvi guardar as poesias para mim. Perto das cinco da tarde, a querida já se preparava para ir embora, e esforcei-me ao esboçar o meu melhor sorriso, mas novamente fiquei com a sensação de “sou obsoleto”. Porém, neste dia, notei que as rápidas palavras que normalmente ela e Dona Vera trocavam, demoraram um tempo maior que o usual. Ao final do expediente, não contive minha curiosidade e perguntei para a senhora sobre o que elas conversaram. Ela me respondeu dizendo: “Amanhã será o último dia dela nesta biblioteca, pelo menos por um bom tempo.” Olhei com uma cara de decepção, e a funcionária prosseguiu me explicando: “se lembra das tuas suposições sobre o que ela estava fazendo aqui? Uma delas estava certa. Ela é uma escritora, e está escrevendo o seu primeiro livro. Mas ela está no meio de uma crise de falta de inspiração, por isso resolveu recorrer a autores renomados pra ver se recupera o dom perdido. Outra coisa, ela me disse que vem amanhã mesmo só porque quer retirar um último livro, o “por que não pediram a Evans”, da Agatha Christie". Neste dia, tive mais uma noite de sono tumultuada. Revirei-me a madrugada inteira pensando no que fazer para chamar a atenção daquela mulher. Quando acordei, finalmente havia pensado em uma solução. Ao chegar à biblioteca, a primeira coisa que fiz foi me dirigir à seção de literatura estrangeira. Procurei o livro que o meu amor platônico viria pegar, e ao abrir a primeira página, coloquei um bilhete com os seguintes dizeres: “vou ficar nu para chamar sua atenção”. Devolvi o livro à estante e retornei para minha mesa, apenas esperando a hora da chegada dela. À uma hora em ponto, sem um segundo de atraso, ela entrou na biblioteca e rumou cegamente em busca do livro que lhe faltava. Dois minutos depois, ela iniciou sua caminhada em direção à mesa de Dona Vera, mas no meio do trajeto, abriu a primeira página do livro e o bilhete que eu havia colocado caiu. Ao ajuntar o recado do chão e se deparar com a mensagem que lá estava, ela fez uma cara de muito espanto, e com um ar confuso amassou o papel e o colocou no bolso, já que não havia uma lixeira por perto. Missão cumprida. Na minha cabeça ela havia entendido o recado. Enquanto minha bela preenchia a ficha de retirada do livro, me levantei calmamente e comecei a me dirigir até onde ela estava. Tranquilamente fui me despindo, primeiro tirando os sapatos e chutando-os para um canto, depois livrando-me das calças (claro que tive que dar um rápida parada, senão levaria um belo tombo), e em seguida continuei o caminho desabotoando minha camisa. Em pouco tempo estava totalmente nu, e de longe já avistava a cara de “não estou acreditando” que Dona Vera fazia. Assim que a moça dos meus sonhos virou e me viu naquele estado, pronunciei as seguintes palavras: “agora você sabe que eu existo!”.



Quarta-feira, Agosto 23, 2006

"Dois Lados"
















Por Rafael Pesce

Cindy:

Meu encontro perfeito: Uma Noite nem tão fria, nem tão quente, com a luz do luar iluminando o caminho a minha frente. Um cara que marque de me pegar às oito e chegue no horário, mesmo sabendo que irei me atrasar por pelo menos uma hora. Um restaurante com clima intimista, a luz de velas, com Françoise Hardy tocando ao fundo. Um ambiente tranqüilo e charmoso, propício a conversas, risadas e quem sabe um beijo de despedida no final do encontro.

Tom:


Meu encontro perfeito: Pizza e sexo. Mas a parte da pizza pode ser pulada eventualmente.

Cindy:

Conheci um cara legal nessa semana. Eu estava no Café Vermont tomando um capuccino, quando de repente minha atenção foi desviada para a porta de entrada. Por ela, entrou um sujeito beirando uns 30 anos, com aquele ar de quem não se preocupa com a aparência, mas que quando prestamos atenção, notamos que tudo está exatamente onde deveria estar. O cabelo estava meio despenteado, mas de um jeito bagunçado arrumado. A calça não combinava com a camisa, mas as cores formavam um mosaico que atraia a atenção de todos. A barba estava por fazer, criando um ar meio rústico, o que me deixou com um certo tesão. E ele sentou-se ao meu lado no balcão.

Tom:

Esta semana conheci uma garota fabulosa. Como é rotina no meu dia, fui tomar um expresso no Café Vermont. Logo quando entrei no lugar, meus olhos encontraram aquela bela mulher. Ela aparentava ter uns 25 anos, era morena e estonteante, daquele tipo “mulher pra casar”. Sentei-me ao lado dela no balcão, e rapidamente pensei em três possíveis assuntos para iniciar uma conversa: desenhos animados, filmes antigos ou o seriado Lost. Havia uma grande chance de ela não gostar de filmes antigos, já que carregava consigo um dvd do Piratas do Caribe. Lost seria um começo meio nerd, e eu podia cair na besteira de contar alguma cena inédita pra ela. Optei por cartoons, já que é do gosto de todo mundo, sem exceção. E funcionou perfeitamente. Depois de discutirmos sobre as aventuras do Tio Patinhas e da Maga Patalógica, peguei o telefone dela, e agora só me restava decidir em qual pizzaria a levaria.

Cindy:

Como é típico dos homens, ele me ligou uma semana depois. Para piorar ainda mais, era final do mês, período em que minha menstruação estava para chegar. Atendi ao telefone e me surpreendi quando ouvi a voz dele do outro lado da linha. Ele notou minha aparente antipatia, e eu fui rápida ao responder que era por causa da TPM. Mal sabem os homens de um dos maiores segredos femininos: a TPM é um mito! Apenas uma desculpa para podermos ficar irritadas. Com este escudo chamado TPM em mãos, pude falar da maneira que queria, sem me preocupar em soar estúpida.

Tom:

Liguei para ela uma semana depois. Eu confesso, me fiz um pouco, é verdade. Mas pelo jeito que ela atendeu ao telefone, o meu atraso não foi uma boa estratégia. Como costumeiro das mulheres, o motivo de tanto mau humor era a TPM. Tive que usar de muito jogo de cintura para reverter a situação, e depois de muito charme e chalálá, só faltava ela me chamar de “meu amor”.

Cindy:

Apesar da demora em me ligar, acabei cedendo aos encantos dele. Confesso, ele exercia um grau de fascinação em mim que acabava impedindo qualquer tipo de repulsa que eu pudesse ter. Só teve uma coisa que não abri mão de jeito nenhum, a escolha do restaurante. Não queria passar a noite inteira me empanturrando de pizza, longe de mim. Acabei por sugerir um restaurante francês que tinha aberto na semana passada.

Tom:

Infelizmente, para não decepcioná-la, tive que abrir mão da pizza e encarar um escargot. Passei às 8 horas na casa dela, e escondendo a minha impaciência, esperei por cerca de uma hora até ela finalmente ficar pronta. Pelo menos valeu a pena, ela estava linda, e faria inveja a qualquer mulher que cruzasse conosco pelo caminho. O restaurante não era tão ruim assim, e como a comida não era muita, tivemos tempo de sobra para conversas e mais conversas, até finalmente decidirmos por um passeio noturno pós-janta.

Cindy:

Ele começou muito bem. Chegou na hora marcada para me pegar, e não deu um pio em relação ao meu atraso. Caprichei no visual, usando um vestido novo que estava guardando para uma ocasião especial. O restaurante fazia jus à fama da comida francesa, e a trilha de fundo era excelente, indo de Françoise Hardy até Charles Aznavour. A companhia do meu par era ótima, e passamos momentos descontraídos em meio a conversas e taças de vinho. Depois da janta, resolvemos caminhar por aí, sem destino definido, apenas deixando a luz do luar iluminando nossa frente.

Tom:

Caminhamos durante horas, mas que pareciam minutos, mas bem que podiam ter sido dias, daqueles que parecem inacabáveis. Como já estava bem tarde, peguei o carro e a levei de volta para casa, meio que na esperança dela me convidar para entrar. Mas mulheres “pra casar” não fazem este tipo de coisa no primeiro encontro, e eu já estava conformado com isso. Nos despedimos com um beijo caloroso e a promessa de um encontro futuro. Depois de deixá-la em casa, passei na pizza hut e comi uma bela fatia de pizza. No final, parece que um encontro com pizza e sem sexo, não foi tão ruim assim.

Terça-feira, Agosto 08, 2006

"Café Vermont"




Por Rafael Pesce

Eu estava sozinho e precisando de alguém. Isso era um fato cientifico. Fazia dois meses que a incompreensível da minha namorada havia me colocado para escanteio, me trocando por um tipo que certamente entraria no meu Top 5 figuras detestáveis. Desde então, passei a não achar mais graça nas mulheres, apenas nela. Eu assumo, seu rosto ainda perambulava pelos meus sonhos, e momentos nostalgia, como olhar fotos antigas de nossas viagens e festas, eram comuns em meu cotidiano. Não gostava mais de conversar com as pessoas, todas vinham com o mesmo tipo de consolo banal, do tipo “você vai esquecê-la”, “logo você vai conhecer alguém”, ou então algo mais retrô, do tipo “há outros peixes no oceano”. A única pessoa que tinha permissão para adentrar a porta que me separava do resto do mundo era minha vizinha e melhor amiga, a Clara.

Querendo me animar um pouco, ela me convidou para ir ao Café Vermont, um lugar freqüentado por pseudo beatnicks e manequins de brechó. Mas o café deles era insuperável, daqueles que você fica sentindo o gosto até a hora de dormir.
Chegamos ao Vermont e pegamos uma mesa escondida como de costume, e enquanto eu pedia gentilmente por dois expressos duplos, a Clara lia a última edição da Revista Freakium.

- O que você está lendo?
- A nova edição da Freakium.
- Isso eu sei. (risos). Mas que matéria?
- Uma entrevista rapidinha com o Odair José!
- Você é fã dos bregas é?
- Digamos que eles são os únicos homens que me entendem. (risos). E você, continua desiludido com as mulheres?
- É...digamos que não vejo mais atração nelas.
- Você virou gay?
- Longe de mim...apenas parece que nenhuma mulher vai chegar aos pés da Bianca, sabe...então não consigo ver sentido nas outras, se é que você me entende.
- Entendo. Eu gostaria de te ajudar sabe. Mas me diz uma coisa, qual o seu tipo de mulher?
- Ah...é....como aquela ali!!!!

Neste momento, meus olhos aguçaram-se como há muito tempo não faziam, e uma figura que parecia não pertencer a este mundo entrou no Vermont. Ela tinha o cabelo encaracolado, tingido de vinho; olhos verdes, mas que podiam ser azuis; a boca não era carnuda, mas descrevia muitas possibilidades; o rosto era meio redondo, com um queixo e um nariz levemente arrebitado; o perfume era suave, e seu andar descompromissado chamava apenas a atenção necessária.

- Aquele é meu tipo ideal de mulher!
- Ah, sim. Mas ela não é grandes coisas. Parece ser meio blasé.
- Vocês mulheres adoram fazer esse tipo de comentário, nunca acham as outras bonitas.
- Não é assim, não seja injusto comigo. Apenas não a achei merecedora do seu encanto. Tem peixes melhores no oceano.
- Até tu Clara. Se eu ouvir mais uma vez algum comentário deste tipo acho que vou surtar.
- Calma...saiu sem querer.
- Ok. Tu sabe que esses últimos meses tem sido complicados pra mim...até agora.
- Sei. Por que você não vai lá falar com ela, ou pelo menos pedir o telefone.
- Eu não quero te deixar aqui sozinha.
- Estou bem acompanhada, lendo minha revista.
- Mas como eu faço pra pegar o número dela? Meu celular foi roubado na semana passada, será que é muita pretensão minha pedir o número dela em um guardanapo?
- Bom, isso só quem pode te responder é ela.

Quando finalmente eu havia tomado coragem para levantar e ir em direção à mesa, uma mulher beirando os 30 anos, segurando um bebê, entrou no Vermont, e adivinha só? Ela era amiga da anja cujo nome eu ainda não sabia. Após um longo abraço, elas sentaram-se, parecendo entusiasmadas com o encontro. Não consegui fazer uma leitura labial para descobrir sobre o que falavam, mas notei que olhavam para a criança com um largo sorriso no rosto.

- Viu só?
- O quê?
- Ela gosta de crianças.
- Como você sabe?
- Ela não para de sorrir para o bebê.
- E daí?
- Como e daí. Quer dizer que sua teoria foi por água a baixo, mulheres blasé não gostam de crianças.
- Como você sabe?
- Eu apenas sei.

Depois de muito papo, elas começaram a mexer em suas bolsas, isso era sinal de que estavam se preparando para ir embora. Se eu não fosse lá agora, correria o risco de nunca mais vê-la, e consequentemente me corroer de remorso pelo resto da minha vida. Com as pernas tremendo de nervosismo, mas com um olhar confiante, parti em direção a mesa delas.

- Oie...me desculpem a intromissão, mas não pude deixar de notar a felicidade de vocês ao olharem o bebê. (Brilhante, será que não consegueria soar mais estúpido, mas agora já estava feito).
- É que eu e minha amiga nos conhecemos semana passada, e hoje ela me convidou pra conhecer o seu lindo bebê. Na próxima semana eu vou apresentar o meu pra ela.

Não era possível. Ela também tinha um bebê. Neste momento fiz uma cara de decepção típica do Chaves, foi como se em um minuto eu tivesse cruzado uma estrada para o paraíso, e chegando lá topasse com uma placa com os dizeres de lotação esgotada!

- Você também tem um bebê então?
- Sim. Você leu aquele livro do Nick Hornby, About a Boy?
- Não, mas eu vi o filme com o Hugh Grant.
- Bom, tirando que no final eles estragaram tudo, o filme não é tão ruim assim. Mas isso não vem ao caso. Você se lembra da SPAT (Single Parents – Alone Together)
- Sim, aquele grupo de auto ajuda apenas de mães e pais solteiros que tem no filme.
- Pois é. Nós fundamos um grupo parecido na semana passada, foi onde eu conheci a Nina. (mais tarde ela viria a me explicar que o grupo foi formado via orkut, quem diria!)

(O nome da amiga eu já sabia, agora só faltava descobrir como se chamava a minha deusa)

- Genial. Nina, a idéia foi sua ou da, da...desculpe, como é seu nome?
- Me chamo Maria Luiza. E você?
- Meu nome é Marvin.
- Marvin?? Que nome peculiar!
- É que minha mãe sempre foi uma grande fã do Marvin Gaye.
- Jura? Acho que “Let´s Get It On” sempre será minha música preferida de todos os tempos.

Vendo que sua presença era inútil no momento, Nina se despediu da amiga e de mim, nos deixando a sós. Neste momento, eu percebi que a minha amiga providencialmente já havia saído também, e agora eu podia me dedicar única e exclusivamente à Maria Luiza. Passamos o resto do dia descobrindo nossas afinidades, tomando litros de café e acabando com o bolo de chocolate do Café Vermont. No final, pedir o telefone dela em um guardanapo ficou até charmoso. Seria esse o começo de um novo amor?





Sábado, Julho 29, 2006

"A Menina Dos Peitos Grandes"

Prefácio: Esta crônica foi escrita há poucos meses atrás para a aula de redação jornalística. A tarefa consistia em observar uma cena e depois descrevê-la da melhor maneira possível. Decidi publicá-la, mesmo com o medo das mulheres não gostarem dela.Mas como minha nota final foi um sonoro 9,5, acho que não tem mal nenhum!

ps: não tirei 10 porquê a referência no fim da crônica não é muito abrangente...mas mesmo assim, o formato original foi mantido.


"A Menina Dos Peitos Grandes"
por Rafael Pesce
Fartos, enormes, suculentos, apetitosos, pelo vasto corredor da Faculdade de Comunicação Social passeiam aqueles peitos. Olhos aguçados, não apenas de todos os homens, mas também de algumas bipolares de plantão, observavam todo aquele charme desfilando.
Coitada daquela justa blusa branca decotada, tendo que segurar todo aquele “conteúdo”. Os biquinhos, fazendo uma leve pressão, pareciam estar clamando um pedido de liberdade. No ritmo da batida do coração, as pernas da menina se movimentavam, primeiro à direita, depois à esquerda, em um andar descompromissado. A bunda (grande, diga-se de passagem) balançava de um lado para o outro, em um movimento antagônico ao exercido pelas tetas. Enquanto suas nádegas mexiam de um lado para o outro, seus seios iam para cima e para baixo, cima, baixo, cima, baixo, cima, baixo, em uma melodia (pelo menos em minha mente) que emulava um carnaval de emoções, onde os peitos nada mais nada menos eram, do que o carro abre-alas. Os movimentos começaram a se tornar ameaçadores, paralisando o meu olhar e deixando a terra em transe. Parecia que o perigo não era apenas eminente para mim. Em um ato inconsciente, as meninas que passavam perto daquele objeto de desejo de dez entre dez americanos, escondiam seus pequenos e murchos seios com um caderno, pasta ou qualquer artefato que estivesse ao alcance. A situação já estava ficando vergonhosa para essas pessoas, e a proteção feita por elas se tornava uma necessidade. Quando eu pensei que tudo aquilo já era demais para mim, eis que surge um novo par de exuberantes peitos, e eles vinham em direção aos seus “conterrâneos”. Em uma cena desengonçada, os seios espremeram-se um contra o outro, em meio a um caloroso abraço. As duas meninas resolveram sentar e tomar um café, porém não abandonaram meus olhos, que as seguiram insistentemente até a mesa do bar. A situação ficou quente quando uma das tetas recebeu um banho de café, mas rapidamente duas mãos munidas de um guardanapo foram ao auxílio das pobrezinhas, que agora já se encontravam a salvo.
Após as garotas terminarem o café, os peitos foram embora com elas, mas a melodia cima, baixo, cima, baixo não abandonou minha mente por um bom tempo. Depois de ter visto todas essas cenas de um ponto privilegiado, posso dizer que me senti um figurante de luxo em um filme do Russ Meyer.